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Jogo da Baleia Azul, depressão e suicídio
Professores da UCB comentam o impacto das redes sociais na vida de jovens, que sofrem de depressão e são levados a atitudes drásticas, como tirar a própria vida. Para eles, o desenvolvimento psicossocial merece atenção.
Da Redação Brasília - DF
Postada em 26/04/2017 ás 15h40
Jogo da Baleia Azul, depressão e suicídio

Reprodução

Por mais que seja um tema pouco explorado e um tabu na sociedade, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio já mata mais que homicídios, desastres e HIV em todo o mundo. Entre jovens de 15 a 29 anos, a prevalência é ainda maior. Entre as motivações observadas nesta faixa etária, o grande desafio do momento é o Jogo da Baleia Azul, composto de 50 tarefas que envolvem automutilação e atividades arriscadas de modo geral, sendo que a polêmica envolveria uma última tarefa, que é tirar a própria vida. Para entender como muitos jovens se sentem atraídos por essas competições, especialistas de saúde e professores da Universidade Católica de Brasília (UCB) explicaram a relação entre a depressão e o suicídio. Eles concordaram que o interesse dos jovens, que estão em fase de formação da personalidade, por esses jogos ocorre devido a um sentimento comum e próprio da idade, que é a vontade de pertencimento a um grupo.

Segundo o professor do curso de Psicologia da UCB, Luciano da Costa Espírito Santo, pesquisas mostram que muito tempo nas redes sociais prejudica a saúde mental dos jovens. “Na internet, o jovem está exposto a uma avaliação irreal do outro, a uma violação da sua intimidade, uma compulsão de verificar as mensagens e uma necessidade de acessar as redes sociais todos os dias. Os relacionamentos online não têm a mesma eficácia e o mesmo suporte, além de não produzirem o mesmo bem-estar que os relacionamentos reais proporcionam. O jovem fica isolado do mundo real e seu bem-estar depende da sua vida social e das suas relações virtuais e não mais das relações familiares sólidas e das amizades reais”.

Sobre a relação da depressão com o Jogo da Baleia Azul, o professor Luciano acredita que, desde que a internet começou a agrupar pessoas distintas, os jovens são incentivados por jogos, grupos online e comunidades que fazem apologia e incentivam a autoagressão, o sofrimento e a adesão a práticas radicais. “Em geral, quem inicia esses grupos são pessoas de perfil sádico e manipulador ou pessoas que estão passando pelo mesmo sofrimento. A ideia é poder se unir para incentivar as pessoas a abandonar suas defesas, seus comportamentos e atitudes saudáveis e progredir em direção à autolesão”.

Atualmente, vivemos mudanças importantes na comunicação com o advento das novas tecnologias e das redes sociais. Na opinião da professora do curso de Medicina da UCB, a médica psiquiatra Daniele Oliveira, falar de suicídio sempre foi tabu, mas essa visão deve mudar. “Conversar sobre suicídio é urgente e inadiável, não só com os jovens, mas em todas as faixas etárias. Nossa sociedade ainda não sabe lidar com as mudanças advindas do uso de novas tecnologias e a comunicação com os jovens parece ser mais difícil. É importante observar as alterações de comportamentos nos jovens, que possam sugerir sofrimento emocional, de modo a atuarmos de forma um pouco mais preventiva”. 

De acordo com o psicólogo, o jovem quer pertencer a um grupo para ser aceito e isso é perigoso. “Quando o jovem está em situação de vulnerabilidade psicológica, esses grupos se tornam mais atrativos, pois oferecem um falso apoio e uma ilusão. O jovem é curioso e procura o novo e a excitação, ou seja, se você transforma o sofrimento numa coisa divertida ou aparentemente divertida, isso soa sedutor. Ele se identifica com a pessoa que está sofrendo como ele”. 

Depressão e suicídio

A psiquiatra explica que o comportamento suicida, entre outros fatores, decorre de uma percepção por parte do indivíduo de alívio do sofrimento, de ruptura com uma situação limite e sem solução. “A doença depressiva induz a distorções de pensamento, por isso, agir preventivamente contra a depressão é fundamental. Há várias iniciativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) nesse sentido, mas só o alerta não basta”. 

A médica psiquiatra, Daniele Oliveira, acredita que o aumento da incidência de casos de suicídio é uma questão de saúde pública. “A grande maioria dos casos de suicídio está relacionada a doenças mentais, o que também tem aumentado nos últimos anos, como é o caso da depressão, uma das principais doenças mentais relacionadas ao suicídio”. No entanto, para a médica, ainda faltam estudos abrangentes sobre a compreensão no aumento de casos entre jovens. “Algumas pesquisas brasileiras sugerem que a falta de perspectivas de vida, insegurança física e econômica, além da falta de acesso ao emprego são fatores a serem considerados”.

Os quadros de depressão têm se misturado com quadros intensos de ansiedade e as causas são multifatoriais, como predisposição biológica, de origem genética, e ambiental, como fatores socioculturais, da comunidade, do grupo de amigos, de personalidade e até do próprio desenvolvimento psicológico individual. Luciano concorda que a depressão é uma grave questão de saúde pública mundial e, segundo ele, tem aumentado, especialmente, em países em desenvolvimento e com baixa ou média renda, como o Brasil. “O jovem está formando sua identidade e a sua personalidade, portanto, é normal que ele viva suas relações familiares e sociais com muita intensidade emocional. Por questões biológicas, psicológicas e sociais, ele pode viver as frustrações e conflitos com muita ansiedade e de forma absoluta”. 

No caminho certo

O professor Luciano Espírito Santo defende a importância de um diálogo aberto com pessoas experientes, como pais, amigos e familiares para prevenir a depressão e diminuir o risco de suicídio. O que para o adulto pode parecer trivial e insignificante, para o jovem é intenso e devastador. “O cuidado mais importante é ter interesse real pela vida dos filhos e não agir apenas como autoridade. É essencial os pais colocarem limite, mas também desenvolver uma relação de diálogo franco, aberto e honesto. Com confiança, os filhos poderão pedir ajuda quando estiverem em sofrimento profundo e os pais terão a liberdade para conversar sobre os perigos online, condições de isolamento, bullying na escola, uso de drogas, sexualidade e todas as questões”, explicou.

Para a professora Daniela, é necessário trabalhar ativamente em escolas, universidades, comunidades e em família as questões que trazem maior sofrimento e desesperança aos jovens, atualmente. “Com isso, será possível maximizar as estratégias de enfrentamento e de adaptação aos problemas que enfrentam, sejam os inerentes à sua própria adolescência ou aqueles decorrentes da sociedade atual”. Como sugestão, a professora apontou a inserção, nos ambientes acadêmicos, de fóruns de discussão e de aprendizagem de técnicas de adaptação para os desafios que os jovens enfrentam.

O papel da escola neste sentido é o de alertar os pais ao observar mudanças de comportamento no jovem, como isolamento, alteração de humor, agressividade e impulsividade, queda do desempenho escolar, entre outros. "A falta de apoio real e as situações familiares difíceis podem contribuir para mudanças negativas. Por isso, os pais devem se certificar que os filhos tenham amigos adequados e frequentem grupos seguros. Por mais que estas mudanças possam parecer passageiras para os outros, elas poderão deixar marcas duradouras no adulto. O desenvolvimento psicossocial do adolescente precisa de uma atenção especial da sociedade, dos professores, dos colegas, dos amigos e dos familiares”, concluiu o psicólogo, professor Luciano. 

FONTE: Da Redação
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