Mais de 200 famílias do Distrito Federal aguardam a entrega das chaves de apartamentos comprados em empreendimento da VIC Engenharia, com sede em Belo Horizonte (MG), localizado no setor central do Gama. O prazo contratual de conclusão da obra era setembro de 2025. Com o período de tolerância de 180 dias previsto em contrato, a data limite passou para março de 2026. Segundo compradores ouvidos pela reportagem, o prazo foi superado e as unidades ainda não foram entregues.
A apuração do contrato de financiamento firmado entre os adquirentes e a Caixa Econômica Federal indica que o instrumento prevê que, superado o prazo de tolerância de seis meses, a responsabilidade pelo pagamento dos encargos mensais passa a ser da construtora, isentando os compradores dessa obrigação até a entrega do imóvel. De acordo com a apuração da reportagem, a VIC Engenharia já assumiu os juros de obra junto à Caixa. Ainda segundo relatos de compradores, a empresa teria informado um prazo adicional de 60 dias, sem que os adquirentes tenham recebido notificação formal.
Além do atraso, compradores relatam problemas de qualidade nas unidades vistoriadas. Segundo esses relatos, parte das vistorias foi reprovada, e os adquirentes aguardam, sem prazo definido, o agendamento das revistorias.
A servidora pública Mariana Guimarães de Sousa, 42 anos, realizou a vistoria do seu apartamento e encontrou uma série de problemas. “Chegar no dia da vistoria e encontrar o apartamento ainda em obras foi muito frustrante”, afirmou. Segundo ela, a porta e o batente do banheiro estavam condenados, havia paredes tortas, tinta fresca sobre manchas escuras, cerâmicas ocas e desniveladas, garagem inacabada e elevador desnivelado. “Uma decepção total”, resumiu.
Mariana comprou o imóvel em 2024. Era o primeiro apartamento próprio. Ela acompanhava a evolução da obra diariamente e a certeza de que o prazo não seria cumprido veio após conversas com outros compradores. O impacto foi além do financeiro. “Custou minha saúde mental. Tive gatilhos de ansiedade. Cresci em casas em construção e escolhi um apartamento justamente por sonhar com algo pronto para mudar. Não me vejo morando em obra”, disse. Mariana ingressou com ação judicial contra a construtora junto a outros moradores e afirmou que não confia na estrutura do prédio. “Tenho receio da qualidade de como foi construído”, declarou.
A biomédica Lourrana Veríssimo, 40 anos, também comprou seu apartamento em 2024 e vive uma situação de maior urgência. O contrato de aluguel do imóvel onde reside venceu em setembro de 2025. O proprietário concedeu mais seis meses de moradia, prazo que se esgota nos próximos dias. “Tenho até o dia 10 do próximo mês para entregar o apartamento que eu moro. Estou com as minhas coisas todas dentro de caixas. Já paguei os móveis planejados e estou aguardando a entrega“, relatou.
A vistoria de Lourrana foi agendada e desmarcada. Uma nova data foi marcada para esta semana. Ela afirmou que planeja entrar com ação de danos materiais e morais contra a construtora. “A minha saúde mental foi o maior custo. Engordei 6 quilos nesses últimos dois meses”, disse. Sobre a comunicação com a empresa, ela relatou receber apenas respostas genéricas. “Quando procuramos a construtora, temos só informações genéricas. Eles não respondem de forma clara”, afirmou.
Os dois casos fazem parte de um conjunto maior de situações semelhantes entre os mais de 200 adquirentes do empreendimento. Parte deles, segundo apuração da reportagem, pretende ingressar com ações judiciais contra a construtora. Compradores que ainda não realizaram a vistoria aguardam agendamento. Aqueles com vistorias reprovadas esperam a marcação das revistorias.
A reportagem enviou questionamento à VIC Engenharia solicitando esclarecimentos sobre os motivos do atraso, o número de vistorias reprovadas, o prazo para realização das revistorias, a nova data prevista para entrega das chaves, a base contratual para o prazo adicional de 60 dias e o posicionamento da empresa sobre eventuais indenizações aos compradores. A empresa não havia se manifestado até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto para manifestação.
A VIC Engenharia atua em mais de 65 cidades do Brasil e afirma ter entregado mais de 17.500 unidades habitacionais. O empreendimento no Gama conta com 236 unidades distribuídas em duas torres.
Nota de transparência: o autor da reportagem também é adquirente de unidade no empreendimento citado.
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