Do produtor à mesa, a água é fundamental na produção dos alimentos. Uma responsabilidade que gira em torno de uma cadeia produtiva passando desde o preparo da terra, irrigação, cultivo, manejo, limpeza à cozinha. Um recurso essencial à vida que vem deixando de ser abundante e trazendo preocupação global. No Distrito Federal, a crise hídrica já deu sinais; com os níveis de volume abaixo do esperado, os produtores rurais estão sendo diretamente afetados. Com o racionamento, que chega há quase dois dias, alguns restaurantes também enfrentam dificuldades para manter a oferta de alimentos para a sua clientela. Nas casas, o armazenamento de água está sendo o principal aliado para garantir as refeições.
Os dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que 70% da água potável é utilizada para irrigação, 20% usada nas indústrias e apenas 10% é utilizada pelo consumidor domiciliar. Para o professor dos cursos de Nutrição e Gastronomia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Marcus Vinicius Cerqueira, é uma diferença de uso de recursos, mas cabe a cada um nessa cadeia produtiva a responsabilidade na garantia da produção dos alimentos. O professor afirma que a preocupação com a escassez do recurso favorece a cultura de conscientização de uso da água. “Como dizer ao produtor que ele não pode usar a água? Se ele não usa a água, não produz. Se ele restringe a água, acaba reduzindo o valor nutricional do alimento, seja vegetal ou animal. Fora o aumento do valor comercial desse produto. O mais importante para o grande ou pequeno produtor é fazer uso de recursos e meios tecnológicos sustentáveis para garantir a alimentação do ser humano. E, isso vem sendo feito, de forma tímida, mas as coisas estão mudando”, salientou.
Especialista em Tecnologia dos Alimentos e experiente na área de produção, o professor Marcus alerta também que com o racionamento, as consequências do uso impróprio da água podem causar consequências que vão desde a simples alteração do produto, como perda das características nutricionais até a ocorrência de intoxicações e infecções alimentares. “Em casa ou nos restaurantes a garantia à saúde do consumidor deve ser preservada mesmo com o racionamento. O cuidado na limpeza, manuseio dos alimentos ou uso dos utensílios na cozinha não deve ser minimizado”, alerta. O professor afirma que os riscos de contaminação e problemas com o uso inadequado da água na cozinha podem gerar transtornos graves para a saúde pública. “Muitas doenças de origem alimentar são causadas pelas práticas inadequadas de manipulação e falta de higiene durante a preparação dos alimentos. E nesse racionamento as pessoas precisam fazer o uso correto da água para evitar a contaminação dos alimentos, o desperdício e a insegurança alimentar”, alerta o especialista. “Não se pode reaproveitar a água que se lavou as frutas e verduras, que contém aditivos de proteção, para, por exemplo, lavar panelas. Dessa forma, você está tirando de um e contaminando o outro”, esclarece.
Além do reaproveitamento da água para fins de higienização em casa e jardinagem como solução para enfrentar a crise e manter a segurança alimentar, Cerqueira ressalta a importância do armazenamento correto da água como fator fundamental para a qualidade de vida e saúde dos consumidores. “A crise da água no DF é ruim. Sei que vai passar, mas essas lições vão ficar. Existe também o lado positivo, porque as pessoas estão mudando os atos quanto ao uso consciente da água”, conclui.
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