A eventual não renovação do Convênio ICMS 01/99 pode gerar um impacto econômico estimado em R$ 9,2 bilhões para o sistema de saúde brasileiro, com aumento de 23,7% nos preços de materiais, equipamentos e dispositivos médicos essenciais utilizados em hospitais, clínicas e laboratórios públicos e privados.
É o que mostra estudo inédito da Aliança Brasileira da Indústria Inovadora em Saúde (ABIIS), que analisou os efeitos da perda da isenção do imposto concedida a 37 categorias de produtos indispensáveis à assistência em saúde.
“O Convênio 01/99, que garante isenção de ICMS para cerca de 200 produtos, pode não ser renovado pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). As reuniões começaram em 4 de agosto. Após a decisão, os governadores e secretários de fazenda estaduais precisam decidir se internalizam ou não o Convênio”, explica o presidente executivo da ABIIS, José Márcio Cerqueira Gomes.
Cerca de R$ 4,7 bilhões do total do impacto recairão sobre o setor público, incluindo o Sistema Único de Saúde (SUS); R$ 136 milhões sobre instituições filantrópicas e sem fins lucrativos; e R$ 4,3 bilhões sobre o setor privado. Segundo o levantamento, o aumento dos custos atingiria aproximadamente 55% da cesta de materiais e equipamentos adquiridos pelos serviços de saúde no país, que inclui produtos como materiais para suturas; grampos e clipes; sondas, cateteres e cânulas; cimentos para reconstituição óssea; chapas e filmes para raio-x; aparelhos e tubos para hemodiálise; instrumentos e aparelhos para transfusão de sangue ou infusão intravenosa; artigos e aparelhos ortopédicos e para fraturas; próteses articulares; válvulas cardíacas; marcapassos cardíacos; stents; cardiodesfibriladores; e artigos e aparelhos para prótese dentária.
Cerca de 196,6 milhões de exames (incluindo raio-x, tomografias e cintilografias), 21,7 milhões de tratamentos, 1,6 milhão de internações e 1,8 milhão de cirurgias realizadas anualmente podem ser afetadas. “Como muitos dos dispositivos contemplados pelo Convênio são utilizados em procedimentos de diferentes especialidades, a elevação da carga tributária poderá comprometer o acesso a tecnologias essenciais, pressionar os orçamentos públicos e privados e ampliar as dificuldades de atendimento ao paciente em diversas regiões do País, além de prejudicar a sustentabilidade de toda a cadeia assistencial”, detalha José Márcio Cerqueira Gomes, que completa: “No setor privado, a elevação dos custos poderá contribuir para reajustes mais elevados nos planos de saúde, com possível migração de parte da demanda para o sistema público, que já opera sob pressão”.
Cardiologia é uma das áreas mais sensíveis
O estudo mostra que oito das 37 categorias de produtos contempladas pelo Convênio correspondem a dispositivos médicos implantáveis utilizados em procedimentos cardiovasculares, como válvulas cardíacas, próteses vasculares, marcapassos, cardiodesfibriladores e stents. A eventual incidência do ICMS poderá agravar os vazios assistenciais já existentes e dificultar o acesso dos pacientes a tecnologias fundamentais para o tratamento de doenças cardiovasculares.
27% das cirurgias oncológicas podem ser comprometidas
Em 2024, o SUS realizou 196.725 cirurgias para tratamento do câncer, das quais aproximadamente 52,5 mil (27%) utilizam produtos contemplados pelo Convênio ICMS 01/99. Entre os procedimentos potencialmente afetados estão as cirurgias para câncer de mama, colo do útero, cólon e reto e próstata.
Hemodiálise também é área crítica
Quatro categorias de produtos abrangidas pelo Convênio (hemodialisadores capilares, rins artificiais, equipamentos para diálise e acessórios utilizados nas linhas de sangue) são indispensáveis para o tratamento de pacientes com doença renal crônica. O aumento de custos desses insumos poderá comprometer a capacidade de atendimento dos serviços e ampliar as dificuldades de acesso ao tratamento.
Impacto para a cadeia produtiva
Além dos efeitos sobre a assistência, a não renovação do Convênio pode afetar diretamente um segmento formado por 13.934 empresas responsáveis por mais de 156 mil empregos. O estudo aponta riscos de aumento da carga tributária, redução das margens, necessidade de renegociação de contratos, adiamento de investimentos em produção e inovação e demissões.
A pesquisa também evidencia que a insegurança jurídica decorrente das renovações periódicas do Convênio dificulta o planejamento das empresas e de toda a cadeia de saúde, com reflexos sobre fabricantes, distribuidores, hospitais, clínicas e laboratórios. “O Confaz e os governos estaduais estão diante de uma decisão que ultrapassa a questão tributária. Na avaliação da ABIIS, a manutenção do Convênio ICMS 01/99 até 31 de dezembro de 2032 permitirá uma transição alinhada ao novo sistema tributário, preservando a sustentabilidade do SUS e da saúde suplementar, reduzindo custos de conformidade para estados e empresas e garantindo maior estabilidade para o planejamento de investimentos e para o abastecimento de dispositivos médicos essenciais no País”, conclui José Márcio Cerqueira Gomes.
Comentários
Faça login para comentar
Para garantir um ambiente de debate saudável, os comentários são exclusivos para usuários cadastrados.