Enquanto ferramentas de inteligência artificial já reduzem pela metade o tempo de preparação de aulas em parte da rede privada do DF, levantamentos nacionais mostram que a categoria docente enfrenta um quadro de precarização: quase 8 em cada 10 professores já pensaram em desistir da profissão, e mais da metade já sofreu algum tipo de violência no exercício do trabalho.
De acordo com o mais recente levantamento TIC Educação, do Cetic.br, sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já utilizam ferramentas de IA para pesquisas escolares. Entre os professores, a adesão à tecnologia também é alta: uma pesquisa do Instituto Semesp, com 444 docentes da educação básica de todo o país, mostra que 74,8% concordam total ou parcialmente que a IA é uma ferramenta aliada no ensino-aprendizagem.
Professores de escolas particulares do DF relatam ganhos concretos na rotina. O tempo de preparação de aula, antes próximo de uma hora, caiu para cerca de 30 minutos, mesmo em conteúdos mais complexos, afirmou um professor de um colégio particular do DF.
“Considerando a quantidade de turmas preparadas semanalmente, estimo uma economia de cerca de 4 a 6 horas por semana”, relata o professor. “É um tempo precioso que deixa de ser gasto na formatação de arquivos e passa a ser direcionado para acompanhar melhor os alunos e aperfeiçoar as práticas pedagógicas diretamente na ponta.”
Apesar do otimismo em relação à tecnologia, o retrato mais amplo da profissão revela um cenário de desgaste. Segundo o Instituto Semesp, 79,4% dos professores da educação básica já pensaram em desistir da carreira, e 67,6% se dizem inseguros, desanimados ou frustrados quanto ao futuro profissional. Mais da metade (52,3%) já sofreu algum tipo de violência no exercício da docência, na maioria das vezes na forma de agressão verbal partindo de alunos.
A questão financeira também pesa: 87,5% dos professores consideram a própria remuneração inadequada ou insuficiente, e apenas 2,5% escolheram a carreira por ela ser bem remunerada. Quase toda a categoria (94,5%) discorda que a profissão seja valorizada pela sociedade atual.
Para Deborah Anastácio, gerente de formação docente entrevistada no setor educacional, a raiz do problema não está na falta de competência dos professores, mas no tempo disponível. “O professor brasileiro não tem problema de competência, tem problema de tempo. A quantidade de tarefas fora da sala de aula é grande: listas, relatórios, registros e adaptações. Quando o profissional passa horas focado nisso, sobra menos energia para olhar para o aluno, perceber quem está travado ou quem precisa de uma conversa”, afirma.
Segundo ela, a tecnologia pode ajudar a organizar a complexidade de salas de aula heterogêneas. “Personalização é uma das palavras mais usadas, e mais mal compreendidas, na educação hoje. Na prática, em uma turma de 35 alunos, você tem 35 ritmos, 35 histórias, 35 formas de aprender. É impossível dar conta disso sem apoio. A IA pode ajudar o professor a organizar essas informações, identificar padrões nos dados disponíveis e sugerir caminhos: atividades em níveis diferentes, formas de retomada, adaptações de material. Ela reduz o esforço operacional de mapear toda essa complexidade”, diz.
Mas o acesso a essa tecnologia ainda é desigual. O levantamento do Instituto Semesp mostra que apenas 54,3% dos professores dizem que a escola onde trabalham oferece algum tipo de apoio para se atualizarem tecnologicamente. Já os dados do Cetic.br revelam desigualdade entre redes de ensino: enquanto 67% dos alunos de escolas estaduais usam a internet para atividades escolares, na rede municipal esse percentual cai para 27%.
“A IA não diminui a importância do professor, ela exige mais dele. Mais autoria, mais julgamento e muito mais presença”, conclui Deborah Anastácio.
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